A surdocegueira é a deficiência, em diversos graus, dos sentidos de audição e visão; isto é, o
surdocego pode ver ou ouvir em pequenos níveis, dependendo do caso. Com base
nos estudos de McInnes, a fim de classificarmos alguém de surdocego é preciso
que esse indivíduo não tenha suficiente visão para compensar a perda auditiva,
ou vice-versa, que não possua audição suficiente para compensar a falta de
visão. Vários autores (tais como Writer, Freeman, Wheeler & Griffin,
McInnes) defendem a surdocegueira como única, não como a soma de dois
comprometimentos sensoriais. Segundo o ponto de vista sensorial de Miles e
Riggio, surdocegos podem ser: bindivíduos surdos profundos e cegos; indivíduos
surdos e têm pouca visão; indivíduos com baixa audição e que são cegos; indivíduos
com alguma visão e audição.
A criança surdocega não é uma criança surda que não
pode ver e nem um cego que não pode ouvir. Não se trata de
simples somatória de surdez e cegueira, nem é só um problema de
comunicação e percepção, ainda que englobe todos esses fatores e alguns mais
(McInnes & Treffy, 1991). Segundo Telford &
Sawrey (1976), quando a visão e audição estão gravemente comprometidas,
os problemas relacionados à aprendizagem dos comportamentos socialmente aceitos
e a adaptação ao meio se multiplicam. A falta dessas percepções limita a
criança surdocega na antecipação do que vai ocorrer
a sua volta. A entrada da mãe no quarto do bebê, por exemplo,
pode não significar tranqüilidade, comida ou carinho, mas pode promover instabilidade
e insegurança. Sua dificuldade na antecipação dos fatos faz com que cada experiência
possa parecer nova e assustadora, como ser transportada de um lugar para o outro,
sentir na boca a introdução de um alimento novo ou ser tocado repentinamente.
Ainda como resultado da privação da visão e
audição, sua motivação na exploração do ambiente é proporcionalmente
diminuída. Seu mundo se limita ao que por casualidade está ao alcance de
sua mão e, sobretudo, a si mesmo. Essas crianças
precisam ser encorajadas a desenvolver um estilo de aprendizagem próprio
para compensar suas dificuldades visuais e auditivas e para estabelecer e
manter relações interpessoais. Portanto, as trocas
interativas das crianças precisam estar orientadas para
o desenvolvimento dos sentidos remanescentes, entre eles, cutâneo, sinestésico
(corporal - articulações e músculos; e, sensorial -
visceral), gustativo e olfativo, como forma de acesso à
informação na ausência dos sentidos da visão e audição. Myklebust
(1971) afirma que quando faltam os sentidos de distância, o tato assume o papel
de sentido-guia, sendo complementado pelos sentidos remanescentes na exploração
e no estabelecimento de contatos com o mundo
exterior. Como lembram Vygotski (1995), e Salomon (2002), é
necessário que os estímulos proporcionados sejam apropriados à singularidade de
cada criança. Telford & Sawrey (1976) destacam a importância de despertar
na criança, por meio de outros canais sensoriais, o desejo
de aprender. É, portanto, preciso vencer “o isolamento do
indivíduo surdocego e só depois de ter sido estabelecido o contato efetivo e
seu isolamento ser reduzido é que a instrução formal se
torna possível” (Telford & Sawrey, 1976, p. 389). Além
de não poder valer-se dos sentidos de distância (visão e audição) para captar informações
reais do mundo, a criança surdocega pode apresentar alguns problemas
decorrentes de saúde, aspecto que pode vir a interferir
no processo de ensino e aprendizagem. Em ambos os casos o desafio é
complexo: as crianças precisam desenvolver formas de comunicação inteligíveis com
os seus interlocutores, antecipar sucessos futuros ou o resultado de suas
ações. Além dessas questões, é importante que a criança esteja
motivada a participar de experiências externas, ainda que básicas,
como alimentação, higiene, lazer etc. O processo de aprendizagem ocorre por repetição
e estimulação orientada em contextos naturais, dado que a surdocegueira interfere
na capacidade de aprendizagem espontânea e na
capacidade de imitação.
A Comunicação na
Surdocegueira
Segundo Nunes (2000), “o processo comunicativo envolve
recepção da informação e a respectiva compreensão da mensagem. Desde muito
cedo, a criança começa a perceber o que é a fala e que os diferentes tons de
voz, as expressões faciais, os gestos e os toques, pretendem dizer-lhe algo, ou
seja, que esses comportamentos têm significados” (p. 48). No entanto, para a
criança surdocega é importante considerar cuidadosamente as formas de como
transmitir a informação e como lhe será permitido que comece a antecipar o que
vai acontecer. A antecipação (a expectativa de uma resposta específica do
ambiente antes de o fato acontecer) é a base para aprender quando é que algo
acontece e o que vai acontecer a seguir. Exemplificando: durante a alimentação,
quando a colher toca os lábios da criança, ela abre a boca na esperança de que
a colher lhe traga algum alimento. Isto é, a criança
antecipou o acontecimento a partir de uma informação
tátil. Esse comportamento antecipatório significa que ela tem alguma
consciência da previsibilidade das relações no seu mundo e que compreendeu a
pista dada (toque nos lábios). Essa previsibilidade ajudará, posteriormente, na
exploração do mundo (Nunes, 2000).
A comunicação pode ser receptiva e expressiva. Muitas
crianças surdocegas não desenvolvem a fala, no entanto podem expressar-se.
Podem também receber as mensagens que lhes são transmitidas por outras vias
sensoriais. Comunicação receptiva é um processo de recepção e
compreensão de mensagens. No caso da criança surdocega, por vezes é difícil
determinar a forma como ela recebe as mensagens. Comunicação expressiva
é a forma como expressar desejos, necessidades e sentimentos. A criança surdocega
utiliza normalmente formas de comunicação não-verbal tais como sorrisos,
movimentos, mudanças de posição que podem ser compreendidos por adultos
familiarizados. A comunicação com essas crianças exige dos adultos que
trabalham com elas conhecimentos específicos sobre esse tipo de comunicação.
Nesse processo, o professor deverá observar e esperar o
tempo necessário que a criança surdocega precisa para entender o enunciado e
para elaborar uma resposta. Essa tentativa de resposta envolverá, por parte da
criança, a seleção do recurso de comunicação (gestos, sinais, emissão verbal,
movimentos, expressões corporais, entre outros) e a adequação deste no processo
interativo. A recepção das informações pela criança surdocega é diferente da
recepção do ouvinte e de alguns surdos. Com os ouvintes, a compreensão e a
elaboração da resposta envolvem um processo mais rápido, pelo fato de o canal
de comunicação ser o oral-auditivo. Os surdos, ao interagirem com pessoas
ouvintes, muitas vezes precisam realizar leitura orofacial da língua portuguesa.
Esse processo demanda um tempo maior para elaboração e emissão da resposta. Em
ambos os casos, ouvintes e surdos, o tempo será mais bem organizado e a
resposta será mais rápida do que no caso da criança surdocega. Ela precisa
selecionar as formas de comunicação que utilizará para expressar-se (sinal,
gesto, falam movimento corporal e facial, objetos de referência). Somente
depois dessa seleção ela tentará emitir sua resposta ao estímulo/assunto em
pauta. Esse processo demanda um tempo maior para organização, elaboração e emissão
da resposta. Isso significa que o professor deverá aguardar o tempo necessário
para que a criança elabore e processe as informações recebidas e tenha
consciência da resposta à demanda do meio, mediante a negociação dos
significados presentes no contexto interativo.
A comunicação interiorizada, quando mediada por um
processo dialógico tátil-corporal, maximiza as possibilidades de interação da
criança surdocega com seu ambiente. A comunicação tátil-corporal potencializará
os recursos de recepção e expressão comunicativa da criança surdocega. A
presença do guia-intérprete e do instrutor de língua de sinais constituirá no
elo facilitador da comunicação receptiva e expressiva do surdocego como seu ambiente.
A questão do contexto lingüístico e da transmissão de informação na sala de
aula é um dos graves problemas enfrentados por crianças com déficits
sensoriais. No caso da criança com perda auditiva e visual, o processo de
comunicação pode ser severamente afetado, uma vez que seu acesso à informação
se processa por vias distintas da visual e auditiva. A comunicação utilizada
pelos surdocegos nas interações constitui-se de formas específicas, individualizadas
e, em muitos casos, a contextualização será sempre necessária.
Os recursos de comunicação usados pelas crianças
surdocegas são vários (sistemas alfabéticos: dactilológico, letras maiúsculas,
tablitas, braile, máquina de escrever em tinta ou em braile e sistemas
não-alfabéticos: LIBRAS, LIBRAS adaptada, leitura labial, Tadoma, movimentos
corporais, sinais no corpo, símbolos, sistemas suplementares de comunicação como
levantar a cabeça, Bliss, PCS e COMPIC, desenho e outros), mas em todo o tato
constitui a via mais promissora no estabelecimento das interações com o
ambiente. Segundo o trabalho de O’Donnell (1991), os recursos de comunicação receptivos
mais usados por surdocegos são: língua de sinais (83%), gestos e insinuações
táteis (60%), alfabeto digitado na mão (40%), sistema braile (6%) e contexto (3%).
Em relação aos recursos de comunicação expressiva, a pesquisa da autora aponta
os seguintes dados: língua de sinais (70%), gestos naturais (55%), linguagem
oral com combinação de outro método (11%) e os que não possuem sistema de comunicação
expressiva (7%). De acordo com esses dados, a língua de sinais constitui o recurso
de comunicação mais promissor para as pessoas surdocegas.

Deficiência
Múltipla
O termo deficiência múltipla tem sido utilizado, com
freqüência, para caracterizar o conjunto de duas ou mais deficiências
associadas, de ordem física, sensorial, mental, emocional ou de comportamento
social. No entanto, não é o somatório dessas alterações que caracterizam a
múltipla deficiência, mas sim o nível de desenvolvimento, as possibilidades funcionais,
de comunicação, interação social e de aprendizagem que determinam as necessidades
educacionais dessas pessoas. O desempenho e as competências dessas crianças são
heterogêneos e variáveis. Alunos,
com níveis funcionais básicos e possibilidades de adaptação
ao meio podem e devem ser educados em classe comum, mediante a necessária
adaptação e suplementação curricular. Outros, entretanto, com mais
dificuldades, poderão necessitar de processos especiais de bensino, apoios
intensos, contínuos e currículo alternativo que correspondam às suas necessidades
na classe comum.
O avanço no processo de desenvolvimento e aprendizagem
das crianças com deficiência múltipla compreende uma ação coletiva maior,
intersetorialidade e responsabilidade social compartilhada. Requer colaboração
entre educação, saúde e assistência social: ação complementar dos profissionais
nas diferentes áreas do conhecimento (neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia,
terapia ocupacional e psicologia
escolar) quando necessário, fornecendo informações e
orientações específicas para o atendimento às peculiaridades decorrentes de
cada deficiência. Essas ações integradas de educação, saúde e assistência
social são essenciais e imprescindíveis para que as necessidades educativas
específicas sejam atendidas, mas não justificam o afastamento ou o atendimento
educacional segregado.
Comunicação
Suplementar Alternativa
O professor deve estar atento aos objetivos
socioemocionais, pois algumas vezes as crianças podem manifestar insegurança,
birra, medo, frustração ou agressividade, isso porque suas necessidades básicas
e de comunicação não foram compreendidas. Esses fatores são fundamentais para a
potencialização do processo cognitivo e da aprendizagem de crianças que
apresentam dificuldades na comunicação em virtude de alterações neuromotoras e sensoriais.
Dessa maneira, deve-se buscar formas positivas de interação e trocas
comunicativas com a criança, tais como toque, olhar, gestos, posturas, palavras
adequadas ou símbolos que expressem a situação.
Algumas crianças podem necessitar de formas
alternativas de comunicação para expressar seus sentimentos, desejos,
necessidades e pensamentos. A professora poderá utilizar, quando a criança não
fala, objetos-símbolo, figuras ou códigos de comunicação Há diferentes sistemas
e códigos alternativos para comunicação que podem ser adaptados para a rotina
da sala de aula como o PCS – sistema de comunicação por símbolos, figuras,
letras e números.
Assim, a comunicação alternativa é uma estratégia
educativa que pode ser criada de acordo com as necessidades do aluno, planejada
com os pais e especialistas da comunicação e linguagem, tendo em vista a
elaboração e organização do pensamento e a construção do conhecimento de forma
significativa.
Sistemas
Tecnológicos e Computadorizados
Crianças com severas alterações neuromotoras e
sensoriais poderão se beneficiar desde cedo de instrumentos eletrônicos
facilitadores do processo de comunicação, avaliação, interação social,
linguagem gráfica e aprendizagem da leitura e escrita. Os equipamentos
eletrônicos podem ser operados pelo sistema direto de teclado, mouse adaptado,
tela sensível ao toque, e indireto, pelo movimento corporal, olhar, sopro,
piscar ou varredura automática. Esses equipamentos de ajuda à comunicação
possibilitam independência e autonomia na execução das atividades pedagógicas. Os
acionadores eletrônicos têm a função de realizar o movimento, a indicação, a
seleção, a escolha ou ação a ser realizada pela criança. Os acionadores podem
ser utilizados em membros de melhor ação funcional como: mão, braço, punho,
cabeça ou até mesmo com os pés. Há dispositivos eletrônicos para crianças cegas
como os sintetizadores dosvox ou virtual vision, que podem ser acoplados a
qualquer programa de computador, jogos pedagógicos e utilizados em atividades
de leitura e escrita. Para as crianças de baixa visão com problemas motores há
os programas pedagógicos que podem ser adaptados às necessidades visuais de cada
criança, com adaptação do teclado ou dispositivo para acionar. O CCTV, circuito
fechado de TV, permite potencializar o contraste, aumentar a imagem e
proporcionar tridimensionalidade à figura.
Inúmeras pesquisas têm sido desenvolvidas nesta última
década para desenvolver programas brasileiros para atender crianças com
deficiências motoras graves e dificuldade de comunicação. Capovilla (2001),
partindo dos tabuleiros de comunicação, do sistema Bliss e PIC desenvolve
programas desde 1994; Santarosa (1995) desenvolveu o simulador de teclado; Pelosi
(1997), o programa “Comunique”; Borges & Watanabe (2001), o teclado amigo. Capovilla
(2001) desenvolveu sistemas computadorizados de habilitação cognitiva, comunicação
pictográfica alfabetização e escrita alfabética para crianças com alterações neurosensoriais
e neurolingüísticas. Esses programas permitem à criança compor mensagens, imprimi-las
e fazê-las soar com voz digitalizada para comunicação direta e efetiva com os interlocutores.
Os recursos tecnológicos são auxiliares efetivos no processo de aprendizagem, construção
do conhecimento, acesso ao currículo e inclusão de crianças com múltipla deficiência
no sistema comum de ensino desde a educação infantil.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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sistema para acesso alternativo a computadores para portadores de deficiências
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BOVE, M. Cursos sobre comunicação do surdocego
congênito. Programa Hilton Perkins para América Latina. São Paulo: 1993.
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____. Educação especial: tendências atuais. Brasília:
MEC/SED,1999a.
____. Educação infantil - Parâmetros em ação. Brasília:
MEC/SEF, 1999b.
____. Parâmetros curriculares nacionais: adaptações
curriculares. Brasília: MEC/SEF, 1999c.
____. Diretrizes nacionais para a educação especial na
educação básica. Brasília: MEC/SEESP, 2001.
CAPOVILLA, Fernando. Comunicação alternativa na USP na
década 1991-2001: Tecnologia e pesquisa em reabilitação, educação e inclusão.
Temas sobre Desenvolvimento 10. Memnon, 2001.
Fátima Ali Abdalah Abdel Cader-Nascimento, et al. Descobrindo a
surdocegueira - educação e comunicação, editora Edusfscar.
NUNES, M. C. A. “Aprendizagem activa na criança
multideficiente com deficiência visual -
um guia para educadores.” Monograph presented in Educational Leadership
Program. Massachusetts:
Perkins School for the Blind, 2000.
Sim-Sim, Inês. A Criança Surda,
contributos para a sua educação, textos de educação, Fundação Calouste
Gulbenkian.